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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Conto das lagartixas

Por Pedro Monteiro

Naquele estorricado sertão nordestino a situação era de muita tristeza. Estávamos na metade do que seria o período das águas e nada de chuva! Plantar naquelas condições era só mesmo desperdiçar as sementes. A fome se fazendo presente, vitimando principalmente, os mais fracos e necessitados. O povo rezando e clamando por reparação, acreditando ser um castigo de Deus.

 

Foi quando meu pai decidiu que iríamos a um rio muito distante dali, mas era o único lugar na redondeza onde, ainda era possível pescar algum peixe. Saímos de casa cedo, andando a pé por dentro da mata e quando já era meio dia, o velho parou e ficou observando aquele céu azul, sem uma nuvem sequer! Eu também parei! Fiquei procurando o que lhe prendia tanto a atenção. Então, vi que era um rodamoinho de urubus plainando nas correntes de ar, e ele olhou, olhou! E ficou por um bom tempo calado, mas me olhava como se precisasse dizer algo.

 

Depois, observando as poucas moitas que teimavam em permanecer verdes, delas, voavam assustadas pombas-rola que por ali se abrigavam do escaldante Sol. Meu pai também as olhava como se precisasse melhor compreendê-las. Mas, foi logo adiante que nos deparamos com a mais enigmática cena. Em cima de uma grande árvore, algo se mexia, pois caíam fragmentos de cascas em nossas cabeças. Paramos ali debaixo e protegendo os olhos com a aba do chapéu, ele olhou para cima, contra o Sol. E para nosso espanto, caíram do alto daquele arvoredo, duas lagartixas, uma agarrada ao rabo da outra. Aquilo para mim foi apenas divertido, mas meu pai mudou de feição e me deu um abraço num gesto de grande alegria, e depois rumamos para casa.

 

Eu, na época com dez anos de idade, fiquei tão intrigado com aquilo tudo e lhe perguntei cheio de curiosidade: - por que estamos voltando? - Foi um aviso! Coisas de Deus! - Disse ele; para depois, me ordenar que passasse num lugarejo próximo e avisasse a alguns trabalhadores diaristas que no dia seguinte, logo cedo, comparecessem lá em casa, para trabalharem a plantação.

 

Para surpresa minha e felicidade de todos, já na boca da noite, começou a relampejar e o dia seguinte amanheceu debaixo de muita chuva... Oh Deus! Naquele ano a alegria tomou conta do povo...

 

*Contista e Poeta Piauiense de Campo Maior.

 

 

da redação do Nordeste Rural
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