Certa vez bisbilhotando mata adentro, fui contemplado com um espetáculo pra lá de curioso. Isso aconteceu no município de Campo Maior no Estado do Piauí.
Quando caminhava na beira de um rio, comecei a ouvir piados de um tipo de ave conhecida na região por nambu jaó. Um piado vinha da direção do vale, o outro, do lado da Serra. De pura curiosidade tomei posição entre os dois e subi numa árvore. Eram idênticos os piados e com a proximidade aumentava mais e mais minha expectativa quanto ao que ia assistir; se, um encontro de acasalamento ou uma disputa entre rivais.
Até que pude avistar de um lado uma jaó-mãe acompanhada por três filhotes, e do outro, um gato selvagem caminhando cuidadosamente de barriga quase que arrastando no chão. Aquilo para mim foi de perder o fôlego, preso à cena; confesso nunca ter visto nada igual! Neste momento a jaó piou e parou! O gato, já muito próximo, mas detrás de uma moita, precisava repetir o piado, para a jaó andar só mais alguns passos e ele agarrá-la. Mas o gato que estava de orelhas murchas e o rabo trêmulo ao invés de piar, ele miou! A reação da jaó foi providencial e imediata, recuou, dando uma espécie de pulo-vôo; enquanto isso os filhotes que ainda não sabiam voar, aturdidos e indefesos se agachavam. Foi então que a mãe vendo as suas crias em perigo, se fez de tonta, batendo asas e dando pulinhos desviando a atenção do gato, aí, os pequenos desapareceram dentro da folhagem. Ainda assim, a jaó mantinha o gato ocupado, dando-lhe investidas, de bico e asas abertas e fazendo um ruído muito estranho. Ela parecia mesmo chamar para si o perigo, pois o habilidoso felino, por vezes, chegava a lhe arrancar algumas penas; mas ela resistia bravamente à peleja. Foi quando ouvi um tropel vindo em nossa direção, eu estava muito atento àquela cena, mas, logo percebi outra começando, era um lobo-guará que vinha embalado atrás de outro gato num pega-pega medonho. Numa manobra esperta, o gato subiu numa árvore e o lobo-guará passou às carreiras. Aliviado o gato desceu, voltando sutilmente nas mesmas pegadas. Já o gato que lutava com a jaó, assustado com aquele rebuliço todo, desapareceu.
Foi aí que eu desci da árvore e também saí de cena, pois, naquele dadivoso palco repleto de estrelas, me senti um vaga-lume num dia de Sol.
*Pedro Monteiro é Piauiense de Campo Maior