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quinta-feira, 8 de julho de 2004
O chupa cabra do sertão

Por

Duda Amaral*

 

Há quem diga que o sertão é o país das maravilhas. Há quem pense que é o inferno dos desgarrados. A verdade é que a região tem muitos encantos e tantos sofrimento. Ora castigada pelas grandes secas ora iluminada por toda a fartura que a irrigação pode gerar. Certo mesmo é que o sertão parece ser a terra dos contrastes. Enquanto o sol estorrica durante os dias, as noites são frias como no sul. Se os campos podem ventilar o fétido cheiro das carcaças também pode exalar o doce perfume do alecrim. O que não se pode negar é que o sertão é mágico e talvez por isso atraia tantos sonhadores. Foi assim que a família Amarante resolveu fincar raízes numa fazenda às margens do rio Ipanema, no sertão de Águas Belas, interior de Pernambuco.

 

A casa da fazenda não era grande, mas tinha um alpendre amplo que a envolvia inteira. Na frente, um pé de umbuzeiro que ficava atapetado de frutas amarelinhas, caidas de maduras, na época das trovoadas. Do lado esquerdo, um velho catavento girava como se mastigasse o tempo num gemido metálico, que parecia nunca ter fim. O melhor daquele pedaço de mundo era o amanhecer. Era difícil sair da cama sob um cobertor quentinho, escutando o som que vinha das gaiolas. O sabiá, a asa branca, o galo de campina, a rolinha “fogo apagou”, o ferreiro, o canário. Todos madrugadores em afinar os instrumentos para cantar a mais perfeita sinfonia. O compasso vinha do curral com o som do badalo do chocalho do gado, das cabras. Era a hora de tirar o leite e tomá-lo morninho, direto do peito da vaca. As crianças adoravam aquele lugar.

 

Estávamos vivendo o final dos anos 90. Época em que o país inteiro se perguntava e se assustava com os ataques do que começou a ser chamado de Chupa-Cabra. O bicho, que nunca foi descoberto, atacava pequenos animais e até humanos. O mais trágico era que as vítimas apareciam quase sem sangue e com alguns órgãos internos extirpados. No Brasil, alguns casos foram registrados nos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. A história do Chupa-cabra já vinha aterrorizando o mundo desde 1967, quando os primeiros casos de ataques foram registrados, em Denver, nos Estados Unidos. Em seguida pararam, para voltar acontecer em Porto Rico. Foi então que o inimigo desconhecido ganhou o nome. A região onde costumava agir, na América Central, é rica em grandes rebanhos de cabras. E estas, se tornaram o principal interesse do bicho, quando reapareceu em 96. O nome Chupa-Cabra vem daí.

 

No Brasil, quem morava no campo perdeu o sossego. As histórias se espalhavam como lendas. No nordeste então, encantou a criatividade popular com mil desditas. Alguns achavam que era coisa de extraterrenos, outros de um monstro voraz e invisível. Era um alien, um vampiro, um lobisomem, enfim, podia ser qualquer coisa.

 

Nesse clima, viviam também os moradores da fazenda dos Amarante, em Águas Belas. Certo entardecer, Lourdinha, neta do velho, estava de brincadeiras no pátio da fazenda e viu quando o avô e o empregado Mariano pegavam os cavalos para dar de beber no barreiro. Perguntou se podia acompanhar e foi mais além, pegou na ponta do cabresto e saiu puxando um dos animais pelo caminho. Era a hora do lusco-fusco. O sol estava se pondo e a caatinga silenciava. Mariano jogava água no dorso dos cavalos e o avô de Lourdinha descascava, com um canivete afiado, uma tabica de pau preto. De repende, varou o silêncio, o urro de um animal em desespero. Parecia estar sendo atacado, em vias de ser consumido. Os dois homens ao se arrepiar com o susto, abriram em desabalada carreira, deixando para trás Lourdinha, de apenas nove anos, atônita, paralisada. Mariano tentou passar por uma cerca de arames farpados. Ao se levantar do outro lado, sentiu a roupa presa e achou que tinha sido agarrado pelo bicho. Gritava pedindo socorro: “Ele me pegou, ele me pegou!!!” A angústia foi tamanha que de um supetão se livrou do arame mas acabou enfiando a cara numa poça de lama, deixada pela chuva.

 

O velho Amarante, refeito do susto, recompôs a segurança e voltou. Deixou a neta em lugar seguro e procurou ver o que estava acontecendo. Na beira do rio viu o enorme cachorro fila brasileiro que criava, tentando esfolar uma cabra. Bastou gritar e Brucutu, como era chamado, soltou a ovelha e correu com o rabo entre as pernas.

 

Não foi dessa vez que o chupa-cabra foi descoberto, mas com certeza, essa é uma história que ainda fervilha na imaginação do nosso povo. Do episódio, restou a Mariano uma camisa rasgada e ao velho Amarante um problema que não consegue resolver. Ainda hoje tenta explicar para a neta porque a abandonou para quase ser devorada pelo bicho!!!

 

*Jonalista

Da redação do Nordeste Rural
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