Por
Cláudio Bellaver, Méd. Vet., PhD
A avicultura comercial brasileira é formada pelos setores de aves de reprodução, de produção de ovos de mesa e de produção de carne. Os estados do Sul do país destacam-se na produção carne de frangos contribuindo com mais da metade da produção nacional. A produção de pintos de corte situa-se em torno de 4,6 bilhões de aves e a produção de carne em 9,5 milhões de toneladas, o que equivale a cerca de 12% da produção mundial de carne de frango.
As exportações nos últimos doze meses ultrapassam 2,5 milhões de toneladas e o consumo interno 7,0 milhões de toneladas de carne de frangos. O setor é responsável por aproximadamente 1,8 e 2,0 milhões de empregos rurais diretos e indiretos, respectivamente, os quais juntamente com os empregos diretos e indiretos na indústria envolvem quatro milhões de pessoas. Por sua vez, a produção anual de pintos para postura de ovos de mesa aproxima-se a 70 milhões de cabeças, resultando numa produção de 1,5 bilhões de dúzias de ovos e no consumo per capita médio de 100 ovos/habitante/ano. Assim sendo, em adição ao suprimento de alimentos de alta qualidade à população brasileira, a avicultura desempenha um papel significativo na geração de empregos, divisas e participação no PIB brasileiro.
Com algumas variações de demanda, os frangos de corte são tecnicamente produzidos para alcançarem um peso médio de 2,5 kg em 42 dias, com uma conversão de 1,8 kg de alimento por kg de ganho de peso. As poedeiras por sua vez devem produzir 320 ovos com conversão alimentar de 1,40 kg de ração por dúzia de ovos produzidos. Nos frangos, o limite do desempenho no ganho de peso e na eficiência alimentar parece estar próximo do limite, uma vez que há implicações com os sistemas cardio-pulmonar e ósseo das aves para aumentar a eficiência. Em poedeiras há espaço para melhorias tecnológicas na produção, a qual está próxima de um ovo por dia. Embora ainda sejam necessários alguns ajustes nos sistemas produtivos, o sucesso da produção de aves dos últimos 40 anos foi conseguido com muito esforço de pesquisa na ciência animal. Os números refletem a alta qualidade genética dos plantéis, nutrição adequada às necessidades de crescimento, monitoramento, profilaxia e controle de doenças, e ambiência que permite melhorar as condições de manejo onde são criadas as aves. Com tecnologias inovadoras nessas áreas é que chegamos aos excelentes desempenhos das aves.
Toda a consideração feita é para situar a importância/relevância da avicultura para o Brasil. Por outro lado, frequentemente, nos deparamos com artigos de mídia que colocam a indústria avícola brasileira sob suspeita na questão da presença de hormônios na carne de frangos. Em geral, os questionamentos são feitos por autores tecnicamente leigos sobre a produção de aves, mas que com seus artigos procuram repassar suas visões para um considerável público. Com o objetivo de esclarecimento técnico, entendemos que precisam ser explicados claramente a esses autores, editores de revistas, jornalistas, profissionais liberais formadores de opinião e leitores em geral, que é um mito errado assumir que os frangos necessitam de hormônio exógeno (externo e adicional ao fisiológico) para apresentarem a boa performance produtiva que apresentam.
As razões para a desconformidade que podemos citar são:
a) os hormônios de crescimento são substancias protéicas, que se eventualmente fossem usados nas dietas não teriam efeito farmacológico, pois seriam quebrados/destruídos pelas enzimas proteases do sistema digestivo das aves. Portanto, seria economicamente inviável usá-los nas dietas das aves, pois não teriam efeito e teriam um custo a ser computado na produção. Também, os hormônios não podem ser injetados, pois poderia se imaginar como seria difícil administrar doses para aproximadamente cinco bilhões de aves e ainda, a administração parenteral de hormônio para efeito no crescimento deve ser diária. Seria uma tarefa extremamente estressante para as aves, consumidora de mão de obra e dispendiosa; e portanto, inviável ao extremo;
b) o maior ganho de peso e eficiência das aves é devido ao somatório dos resultados de 40 anos de pesquisas em seleção genética, determinação de exigências nutricionais e balanceamento de cada nutriente e energia das dietas, ambiência adequada com controles de temperatura, umidade do ar e ventilação das instalações, monitoria e controle de doenças da produção e zoonóticas e, adequado manejo da produção, transporte e transformação do frango em carne. No país, a Embrapa, universidades e institutos de pesquisa tiveram e continuarão tendo uma significativa participação no desenvolvimento cientifico e tecnológico da avicultura.
Outro aspecto polêmico que tem sido referido na mídia é sobre uma certa competitividade entre a produção orgânica com a produção industrial de frangos. Entendemos que há espaço para produção e mercado para ambas alternativas; sendo que, a primeira pode ser considerada como a produção para nichos específicos de mercado e, a segunda, como geradora e responsável primária do beneficio econômico e social que conhecemos, mostrados no inicio desse artigo. A polêmica criada, porém, traz viés conceitual sobre o que tecnologicamente está correto. Tanto uma como a outra alternativa de produção são viáveis desde que esclarecidos os aspectos de que ambas devam primar por sistemas de garantia de qualidade do produto, atendendo normas semelhantes de segurança dos alimentos. Para isso, a produção orgânica deve além de ser profissional, ser certificada por entidade independente. Não se deve deixar de mencionar, que a produção orgânica, via de regra, é mais cara e portanto, terá um preço maior no mercado consumidor. Trabalhos de preferência do consumidor demonstram que os consumidores diminuem proporcionalmente a disposição de comprar alimentos com apelo orgânico, quando o preço aumenta. A opção para mercados específicos e diferenciados deve ser vista como normal e cabe ao consumidor optar pelo produto da qualidade que deseja e do preço que está disposto a pagar.
Todos desejam alimentos saudáveis e o Ministério da Agricultura procura através de suas normas, direcionar a produção animal para a conformidade com o Codex Alimentarius. A Embrapa trabalha em parceria com o SENAI, SENAR e SEBRAE no programa de alimentos seguros PAS Campo e têm estabelecido normas de boas praticas de produção animal; tudo isso, visando a segurança e qualidade dos alimentos produzidos industrialmente. Portanto, esclarecemos aos leitores que na indústria animal, além dos controles oficiais, outros programas independentes de segurança dos alimentos são conduzidos para garantir a segurança dos alimentos. Entre esses, os de análise de perigos e pontos críticos de controle (APPCC), ISO´s, EurepGAP, boas práticas de fabricação (BPF) e (ou) boas práticas de produção (BPP), os quais continuarão a ser usados na cadeia produtiva industrial, com a auditoria de organizações certificadoras internacionais, acreditadas e(ou) pelo INMETRO/MAPA, com o objetivo de aplicação de procedimentos para a redução de riscos químicos, biológicos e físicos associados à segurança dos alimentos cárneos e ovos.
A atenção futura em pesquisas na avicultura deverá concentrar na melhoria ambiental, ambiência dos sistemas de produção de aves, saúde animal, melhoria nos ingredientes e processos para produção de rações, explorando-se ao máximo o potencial genético das aves, sem descuidar-se do bem-estar das aves de produção. Ainda, para a segurança dos alimentos de origem animal, com menor risco a saúde humana, são necessárias ações relativas a implementação de boas práticas (BP) de produção nas granjas (sistemas recomendados de produção), BP nas fábricas de ração (atendimento de normas para a garantia da qualidade das rações), BP no transporte e abate e na análise de perigos e pontos críticos de controle na indústria de transformação e distribuição.
* Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Área de nutrição animal, bellaver@cnpsa.embrapa.br