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quinta-feira, 23 de outubro de 2003
Cantoria: A Poesia Nordestina
por
André Gallindo*


Apesar de ser um símbolo da cultura popular do Nordeste Brasileiro, a cantoria tem raízes bem distantes. Vem do improviso dos trovadores árabes. Os primeiros registros de que se tem notícia datam do século onze. Os Mouros, que passaram quatrocentos anos na Península Ibérica, trataram de levar a tradição para as festanças do Reino Espanhol. Como a geografia mais seca e a religiosidade fortes de lá se assemelhavam com as do Nordeste brasileiro, o vento do improviso soprou no rumo natural.

André Gallindo

A ventania bateu mais forte no sertão da Paraíba, mais diretamente na Serra do Teixeira, que no início do século dezenove, ficou conhecida como a Grécia dos Cantadores. É de lá um dos primeiros repentistas brasileiros: Agostinho Nunes da Costa. Sua poesia já seguia a métrica de hoje. Estrofes de dez versos com rimas intercaladas.

A cantoria resistiu ao longo da história do país. Seja no Império ou na República. Méritos dos repentistas mais velhos que repassavam os conhecimentos aos filhos e netos. Muitos deles, nunca freqüentaram a escola. Aprenderam a ler pelos folhetos de cordel. Segundo o pesquisador Liêdo Maranhão, os folhetos são o jornal do matuto. “Quem não sabia ler, entregava as histórias ao vizinho mais estudado. É como se diz: ler com os olhos do compadre”. Hoje, estima-se que mil cantadores sobrevivam do improviso. A maioria vive na região Nordeste.

Renegados como literatura menor, os versos do repente sempre tiveram espaço na cultura popular. Presentes nas letras dos cantores de forró e nas rodas de declamadores. Com o passar do tempo, o estilo ganhou respeito. Atraiu a classe média, os profissionais liberais, a intelectualidade.

Um bom exemplo disso é o paraibano Jessier Quirino. Arquiteto por profissão, ele é um dos mais festejados declamadores da atualidade. Suas poesias, são inspiradas na literatura de cordel e nas rimas dos cantadores.

Os repentistas também influenciaram boa parte da geração nordestina de cantores da música popular brasileira. Elba Ramalho, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Xangai são alguns exemplos.

Ruas, praças, feiras de interior, tudo serve de cenário para os violeiros. Há três anos, eles ganharam a maior plataforma. O Festival “Desafio Nordestino de Cantadores”.

Este ano, o Desafio reuniu quarenta cantadores de sete estados nordestinos. As duplas percorreram oito cidades pernambucanas. Seiscentos quilômetros de cantoria em etapas eliminatórias. O que atraiu um público de sessenta mil pessoas. Quinze mil só na final, na Praça do Marco Zero, no Centro Histórico do Recife.

 

Espaço que os poetas utilizam também para vender folhetos, livros e discos. A maioria da produção é independente. Mesmo longe dos mimos de grandes editoras e gravadoras, os cantadores conseguem sobreviver. “O público da cantoria é fiel. Se fizermos dez discos, quem compra o primeiro, compra o décimo”, garante o poeta pernambucano Zé Cardoso.

 

O Desafio de Cantadores segue um julgamento rigoroso. Cada dupla deve improvisar sobre três estilos definidos. É assim na maioria dos festivais que ocorre Brasil afora.

 

Os estilos mais comuns são:

 

- Sextilhas – versos de seis sílabas com rimas intercaladas.

Exemplos:

Se você dá uma flor

Pra criatura carente

Dormida a quem está com sono

Remédio a quem está doente

Sua alma tem lugar

No Reino do Onipotente

Assunto: Pra que serve a caridade

Autor: José Cardoso

Encanto - Rio Grande do Norte

***************

É candidato a finado

Quem do fumo é sempre fã

Porque esse tabagismo

É o próprio Vietnan

E transforma o gordo hoje

Em esqueleto amanhã

Assunto: Campanha contra o fumo.

Autor: Ivanildo Vila Nova

Caruaru - Pernambuco

- Mote de sete sílabas ou linhas.

Exemplo:

Aquele que pinta o sete

E desfila na avenida

Cheirando a cola perdida

Porque é o seu escrete

Quem encontrar um pivete

Na esquina do mercado

Não entregue a um soldado

Lhe dê um pão pra comer

Quem não pediu pra nascer (mote)

Não deve ser castigado

Autor: Severino Feitosa

Santa Terezinha - Pernambuco

********************

Deus fez a relva sombria

Fez o tatu à burguesa

O campo da natureza

A mais bela ecologia

Mas o homem de hoje em dia

Não lhe procura zelar

Está poluindo o ar

E pondo resíduo no leito

Deus fez tudo tão bem feito (mote)

E o homem quer desmanchar

Autor: Raimundo Caetano

Cuité - Paraíba

- Décima. Mote de dez linhas.

Exemplo:

Para o homem que tem inteligência

Cada dia que passa é uma escola

Pra mim que só uso essa viola

Por sinal de improviso e competência

Basta ler da Divina Providência

A altura da grande imensidade

As estrelas de branda claridade

Por entre raios que são cor de cristais

A escola da vida ensina mais (mote)

Do que grupo, cursinho e faculdade

Autor: Moacir Laurentino

Paulista - Paraíba

***********************************

Não podemos beber no tiroteio

Nem com as armas químicas nos matando

É preciso viver dialogando

Que essa vida só presta no recreio

É preciso a justiça entrar no meio

Que a justiça querendo tudo faz

Que se Deus que castiga os marginais

É o mesmo que sabe dar perdão

As nações reunidas saberão (mote)

Encontrar um caminho para a paz

Autor: Sebastião Dias

Caicó (RGN)

(Motes fornecidos pela Fundarpe)

· Disputa

 

Os cantadores têm cinco minutos para desenvolver cada estilo. A dupla não pode desviar do mote - o tema sobre o qual os cantadores vão improvisar. E eles só sabem do assunto na hora, através de envelopes lacrados. O que valoriza a criatividade dos repentistas. “Na escola se aprende a falar, mas a poesia vem no sangue. O estudo aumenta o vocabulário, mas não é tudo”, revela o repentista João Lourenço.

Para valorizar ainda mais o improviso, os cantadores têm que estar bem informados. O improviso bem feito, levanta o público como num gol em jogo de futebol. E para conquistar a platéia e convencer os jurados, as duplas utilizam um recurso circense. Fazem gestos e versos engraçados. Muitas vezes, brincam com o próprio parceiro. É o chamado desafio.

Abaixo, alguns versos tirados por cantadores:

Antônio Raimundo (PI)

Meu maior conhecimento

Adquiri em congresso

A quem mais sabe, pergunto

A quem perguntar, confesso

Pra quem canta de viola

O congresso é uma escola

E prova final do sucesso

Adalberto Carvalho (PI)

Joaquim, o seu trinta e oito

Eu vou encher de repente

Vinte e dois não vale nada

Que a bala não mata gente

Trinta e dois a bala é fria

Trinta e oito a bala é quente

Heleno Severino (PE)

Pinto Velho do Monteiro

Está cansado e sem dom

Garganta faltando voz

Viola faltando som

Nem toca, nem canta mais

Nem morre, nem fica bom

Zé Galdino (PE)

Infância foi ilusão

Por quem por ela passou

A velhice é um museu

Que o tempo fabricou

Pra guardar as fantasias

Que a juventude deixou

Francisco Caetano (PB)

Meu dom é dado por Deus

Quando eu morrer ele fica

Eu sou pobre igual a Jô

Mas a minha rima é rica

Possui gosto da fonte

Do olho d`água da bica

Geraldo Brito (PB)

Vai ver tantos filhos seus

Entre as chamas dos pecados

Muitos assaltantes soltos

Tantos casais separados

Vem abraçar os humildes

E perdoar os errados

Zé Viola (PI)

Numa expressão de bondade

Teus atos são concluídos

Jesus, tu és claridade

Refúgio dos excluídos

Tecido fino das pétalas

Dos paraísos perdidos

Moacir Laurentino (PB)

Acho bonito o inverno

Quando o rio está de nado

Que o sapo faz oi aqui

Outro oi do outro lado

Parece dois cantadores

Cantando mourão voltado

Louro Branco (CE)

A cantoria está boa

Porque estou vendo perto

Nosso amigo Joaquim Bento

Ah, errei, é Joaquim Berto

Errei o nome do homem

Mas de outra vez eu acerto

Miro Pereira (RN)

O meu pai não tem estudo

Mamãe é analfabeta

Eu pouco fui à escola

Somente Deus me completa

Com esse sublime dom

De repentista e poeta

Severino Nunes Feitosa (PE)

Eu vou subindo e descendo

Sem rumo e sem direção

Como cigano perdido

No meio da multidão

Limpando o suor do rosto

Nos panos do matulão

Sebastião José da Silva (PB)

Vou pra terra dos amores

Do Messias de Belém

Onde não existe o mal

Onde só se faz o bem

Político não pede voto

Ninguém engana ninguém

João Lourenço (PB)

Eu já passei tanta coisa

Que na vida nem pensava

Pra minha felicidade

A mulher que eu procurava

Deus teve pena de mim

Mostrou aonde ela estava

Fenelon Dantas (PB)

O rádio é para se ouvir

E todo mundo entender

O telefone é melhor

Para a gente ouvir sem ver

No telefone eu namoro

Sem minha mulher saber

Edvaldo Zuzu (PE)

Em Lagoa do Itaenga

Injustamente sofri

Com trabalhos ajudei

Com votos eu elegi

Fiz mais do que me fizeram

Dei mais do que recebi

Biu Dionísio (PE)

Meu sonho de alpinismo

No precipício caiu

Quando eu caí todos viram

Quando escalei ninguém viu

Os monstros feitos de mármore

Que a mão de Deus esculpiu

Sebastião Dias (RN)

Já nas avenidas belas

Cada edifício é um nome

Num bonito apartamento

Um burguês que tudo come

Ocupa os vãos que um pedreiro

Construiu passando fome

João Paraibano (PB)

O que mais me admira

É ver sapo inocente

Que gosta de lama fria

Mas detesta a terra quente

Vendo da cobra o pescoço

Pinota dentro do poço

Pra se livrar da serpente

Raimundo Caetano (PB)

Não gosto de ver nas ruas

Que os homens não são felizes

Que os marajás são felizes

Que os pobres são indefesos

Que os criminosos são soltos

Que os inocentes são presos

Waldir Teles (PE)

Mãe tirana e vaidosa

E o pai que não auxilia

Na hora da gestação

Se gera com alegria

É pai na hora que gera

Depois esquece e não cria


 

  • Vila Nova: símbolo dos cantadores

Cinqüenta e sete anos de idade, quarenta anos de cantoria. Nascido em Caruaru, Ivanildo Vila Nova ganhou o Brasil e o Mundo com sua viola e os versos que tira de improviso. A paixão nasceu logo quando criança, aos nove anos de idade, por influência do pai, “Seu” José Faustino Vila Nova.

Vila Nova começou a cantar profissionalmente em 1963, Já esteve na Europa e nos Estados Unidos representando a arte popular brasileira.

São mais de duzentas composições escritas por Vila Nova. A mais conhecida também se tornou um marco para a cantoria: Nordeste Independente.

1
Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso fôr feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

2
Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

3
Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense"
a bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

4
O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

5
Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

6
Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fêz
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

(Aqui, incluídos versos adicionais de Bráulio Tavares)

*Jornalista

Da redação do Nordeste Rural
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07.05.2014 05h35>
Quando o inverno não falha, tem fartura no sertão

por Dalinha Catunda*

 
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