A ventania bateu mais forte no sertão da Paraíba, mais diretamente na Serra do Teixeira, que no início do século dezenove, ficou conhecida como a Grécia dos Cantadores. É de lá um dos primeiros repentistas brasileiros: Agostinho Nunes da Costa. Sua poesia já seguia a métrica de hoje. Estrofes de dez versos com rimas intercaladas.
A cantoria resistiu ao longo da história do país. Seja no Império ou na República. Méritos dos repentistas mais velhos que repassavam os conhecimentos aos filhos e netos. Muitos deles, nunca freqüentaram a escola. Aprenderam a ler pelos folhetos de cordel. Segundo o pesquisador Liêdo Maranhão, os folhetos são o jornal do matuto. “Quem não sabia ler, entregava as histórias ao vizinho mais estudado. É como se diz: ler com os olhos do compadre”. Hoje, estima-se que mil cantadores sobrevivam do improviso. A maioria vive na região Nordeste.
Renegados como literatura menor, os versos do repente sempre tiveram espaço na cultura popular. Presentes nas letras dos cantores de forró e nas rodas de declamadores. Com o passar do tempo, o estilo ganhou respeito. Atraiu a classe média, os profissionais liberais, a intelectualidade.
Um bom exemplo disso é o paraibano Jessier Quirino. Arquiteto por profissão, ele é um dos mais festejados declamadores da atualidade. Suas poesias, são inspiradas na literatura de cordel e nas rimas dos cantadores.
Os repentistas também influenciaram boa parte da geração nordestina de cantores da música popular brasileira. Elba Ramalho, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Xangai são alguns exemplos.
Ruas, praças, feiras de interior, tudo serve de cenário para os violeiros. Há três anos, eles ganharam a maior plataforma. O Festival “Desafio Nordestino de Cantadores”.
Este ano, o Desafio reuniu quarenta cantadores de sete estados nordestinos. As duplas percorreram oito cidades pernambucanas. Seiscentos quilômetros de cantoria em etapas eliminatórias. O que atraiu um público de sessenta mil pessoas. Quinze mil só na final, na Praça do Marco Zero, no Centro Histórico do Recife.
Espaço que os poetas utilizam também para vender folhetos, livros e discos. A maioria da produção é independente. Mesmo longe dos mimos de grandes editoras e gravadoras, os cantadores conseguem sobreviver. “O público da cantoria é fiel. Se fizermos dez discos, quem compra o primeiro, compra o décimo”, garante o poeta pernambucano Zé Cardoso.
O Desafio de Cantadores segue um julgamento rigoroso. Cada dupla deve improvisar sobre três estilos definidos. É assim na maioria dos festivais que ocorre Brasil afora.
Os estilos mais comuns são:
- Sextilhas – versos de seis sílabas com rimas intercaladas.
Exemplos:
Se você dá uma flor
Pra criatura carente
Dormida a quem está com sono
Remédio a quem está doente
Sua alma tem lugar
No Reino do Onipotente
Assunto: Pra que serve a caridade
Autor: José Cardoso
Encanto - Rio Grande do Norte
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É candidato a finado
Quem do fumo é sempre fã
Porque esse tabagismo
É o próprio Vietnan
E transforma o gordo hoje
Em esqueleto amanhã
Assunto: Campanha contra o fumo.
Autor: Ivanildo Vila Nova
Caruaru - Pernambuco
- Mote de sete sílabas ou linhas.
Exemplo:
Aquele que pinta o sete
E desfila na avenida
Cheirando a cola perdida
Porque é o seu escrete
Quem encontrar um pivete
Na esquina do mercado
Não entregue a um soldado
Lhe dê um pão pra comer
Quem não pediu pra nascer (mote)
Não deve ser castigado
Autor: Severino Feitosa
Santa Terezinha - Pernambuco
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Deus fez a relva sombria
Fez o tatu à burguesa
O campo da natureza
A mais bela ecologia
Mas o homem de hoje em dia
Não lhe procura zelar
Está poluindo o ar
E pondo resíduo no leito
Deus fez tudo tão bem feito (mote)
E o homem quer desmanchar
Autor: Raimundo Caetano
Cuité - Paraíba
- Décima. Mote de dez linhas.
Exemplo:
Para o homem que tem inteligência
Cada dia que passa é uma escola
Pra mim que só uso essa viola
Por sinal de improviso e competência
Basta ler da Divina Providência
A altura da grande imensidade
As estrelas de branda claridade
Por entre raios que são cor de cristais
A escola da vida ensina mais (mote)
Do que grupo, cursinho e faculdade
Autor: Moacir Laurentino
Paulista - Paraíba
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Não podemos beber no tiroteio
Nem com as armas químicas nos matando
É preciso viver dialogando
Que essa vida só presta no recreio
É preciso a justiça entrar no meio
Que a justiça querendo tudo faz
Que se Deus que castiga os marginais
É o mesmo que sabe dar perdão
As nações reunidas saberão (mote)
Encontrar um caminho para a paz
Autor: Sebastião Dias
Caicó (RGN)
(Motes fornecidos pela Fundarpe)
· Disputa
Os cantadores têm cinco minutos para desenvolver cada estilo. A dupla não pode desviar do mote - o tema sobre o qual os cantadores vão improvisar. E eles só sabem do assunto na hora, através de envelopes lacrados. O que valoriza a criatividade dos repentistas. “Na escola se aprende a falar, mas a poesia vem no sangue. O estudo aumenta o vocabulário, mas não é tudo”, revela o repentista João Lourenço.
Para valorizar ainda mais o improviso, os cantadores têm que estar bem informados. O improviso bem feito, levanta o público como num gol em jogo de futebol. E para conquistar a platéia e convencer os jurados, as duplas utilizam um recurso circense. Fazem gestos e versos engraçados. Muitas vezes, brincam com o próprio parceiro. É o chamado desafio.
Abaixo, alguns versos tirados por cantadores:
Antônio Raimundo (PI)
Meu maior conhecimento
Adquiri em congresso
A quem mais sabe, pergunto
A quem perguntar, confesso
Pra quem canta de viola
O congresso é uma escola
E prova final do sucesso
Adalberto Carvalho (PI)
Joaquim, o seu trinta e oito
Eu vou encher de repente
Vinte e dois não vale nada
Que a bala não mata gente
Trinta e dois a bala é fria
Trinta e oito a bala é quente
Heleno Severino (PE)
Pinto Velho do Monteiro
Está cansado e sem dom
Garganta faltando voz
Viola faltando som
Nem toca, nem canta mais
Nem morre, nem fica bom
Zé Galdino (PE)
Infância foi ilusão
Por quem por ela passou
A velhice é um museu
Que o tempo fabricou
Pra guardar as fantasias
Que a juventude deixou
Francisco Caetano (PB)
Meu dom é dado por Deus
Quando eu morrer ele fica
Eu sou pobre igual a Jô
Mas a minha rima é rica
Possui gosto da fonte
Do olho d`água da bica
Geraldo Brito (PB)
Vai ver tantos filhos seus
Entre as chamas dos pecados
Muitos assaltantes soltos
Tantos casais separados
Vem abraçar os humildes
E perdoar os errados
Zé Viola (PI)
Numa expressão de bondade
Teus atos são concluídos
Jesus, tu és claridade
Refúgio dos excluídos
Tecido fino das pétalas
Dos paraísos perdidos
Moacir Laurentino (PB)
Acho bonito o inverno
Quando o rio está de nado
Que o sapo faz oi aqui
Outro oi do outro lado
Parece dois cantadores
Cantando mourão voltado
Louro Branco (CE)
A cantoria está boa
Porque estou vendo perto
Nosso amigo Joaquim Bento
Ah, errei, é Joaquim Berto
Errei o nome do homem
Mas de outra vez eu acerto
Miro Pereira (RN)
O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta
Severino Nunes Feitosa (PE)
Eu vou subindo e descendo
Sem rumo e sem direção
Como cigano perdido
No meio da multidão
Limpando o suor do rosto
Nos panos do matulão
Sebastião José da Silva (PB)
Vou pra terra dos amores
Do Messias de Belém
Onde não existe o mal
Onde só se faz o bem
Político não pede voto
Ninguém engana ninguém
João Lourenço (PB)
Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava
Fenelon Dantas (PB)
O rádio é para se ouvir
E todo mundo entender
O telefone é melhor
Para a gente ouvir sem ver
No telefone eu namoro
Sem minha mulher saber
Edvaldo Zuzu (PE)
Em Lagoa do Itaenga
Injustamente sofri
Com trabalhos ajudei
Com votos eu elegi
Fiz mais do que me fizeram
Dei mais do que recebi
Biu Dionísio (PE)
Meu sonho de alpinismo
No precipício caiu
Quando eu caí todos viram
Quando escalei ninguém viu
Os monstros feitos de mármore
Que a mão de Deus esculpiu
Sebastião Dias (RN)
Já nas avenidas belas
Cada edifício é um nome
Num bonito apartamento
Um burguês que tudo come
Ocupa os vãos que um pedreiro
Construiu passando fome
João Paraibano (PB)
O que mais me admira
É ver sapo inocente
Que gosta de lama fria
Mas detesta a terra quente
Vendo da cobra o pescoço
Pinota dentro do poço
Pra se livrar da serpente
Raimundo Caetano (PB)
Não gosto de ver nas ruas
Que os homens não são felizes
Que os marajás são felizes
Que os pobres são indefesos
Que os criminosos são soltos
Que os inocentes são presos
Waldir Teles (PE)
Mãe tirana e vaidosa
E o pai que não auxilia
Na hora da gestação
Se gera com alegria
É pai na hora que gera
Depois esquece e não cria
- Vila Nova: símbolo dos cantadores
Cinqüenta e sete anos de idade, quarenta anos de cantoria. Nascido em Caruaru, Ivanildo Vila Nova ganhou o Brasil e o Mundo com sua viola e os versos que tira de improviso. A paixão nasceu logo quando criança, aos nove anos de idade, por influência do pai, “Seu” José Faustino Vila Nova.
Vila Nova começou a cantar profissionalmente em 1963, Já esteve na Europa e nos Estados Unidos representando a arte popular brasileira.
São mais de duzentas composições escritas por Vila Nova. A mais conhecida também se tornou um marco para a cantoria: Nordeste Independente.
1
Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso fôr feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
2
Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
3
Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense"
a bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
4
O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
5
Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
6
Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fêz
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
(Aqui, incluídos versos adicionais de Bráulio Tavares)